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quinta-feira, 26 de junho de 2014

As mentiras que sobre nós.

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Desconstruir o mito de que mulheres são todas inimigas é um passo importante no combate ao machismo. Por Aline Valek, no blog Escritório Feminista
por Aline Valek — publicado 22/05/2014 10:43, última modificação 22/05/2014 14:13
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Amigas
Inimigas. Invejosas. Recalcadas. Fofoqueiras.

Foi isso que nos ensinaram: que não poderíamos confiar umas nas outras. Cochicharam em nossos ouvidos que mulher é tudo falsa. Nos disseram que as outras eram interesseiras, traiçoeiras, que roubariam nossos namorados, que tentariam chamar mais a atenção, que eram vagabundas, sempre uma ameaça.

Ensinaram a lição e mostramos que aprendemos quando dizemos que “mulher trabalhando junta não presta”, ou quando nos orgulhamos ao dizer “não tenho amigas mulheres”, ou quando odiamos aquela garota sem motivo algum, ou todas as vezes que julgamos a sexualidade da colega ou ainda quando atacamos, humilhamos ou desprezamos a outra apenas para buscar as migalhas da aprovação masculina.

Como pudemos acreditar nessas mentiras por tanto tempo?

É tentador acreditar que “somos diferentes das outras” para tentar colher as recompensas por ser uma “boa garota”. Eu sei. O problema é que essas recompensas nunca virão. Se hoje odiamos as outras mulheres e não hesitamos em julga-las, atacá-las ou exclui-las, nada impede que amanhã os dedos que apontam para elas se voltem para nós mesmas. Hoje, a vagabunda é a “outra”; amanhã pode ser eu ou você. Nenhuma de nós está imune – e por isso mesmo, por mais diferentes que sejamos, há muito mais em comum entre nós do que você possa imaginar.

Colocaram entre nós essa espessa cortina de rivalidade para que não sejamos capazes de nos enxergar de verdade. Para nos isolar. Para que, divididas, nos enfraqueçam. Consegue imaginar a quem isso possa interessar? Se eu e você sempre nos considerarmos inimigas, vamos poder esquecer de combater as estruturas da sociedade feitas para nos manter nos nossos devidos lugares. Se eu e você nunca nos considerarmos aliadas, seremos mais facilmente vencidas. Parece até teoria da conspiração, mas basta olhar ao seu redor. Basta olhar para a sua própria vida.

Então está na hora de tentar ver além dessa cortina e, ao invés de olhar para o que nos difere, tentar encontrar aquilo que nos aproxima. Talvez você se surpreenda ao encontrar do outro lado não esse estereótipo odioso que nos venderam, mas uma mulher igual a você. Um ser humano tão único, multifacetado, com falhas e atributos positivos, assim como você mesma.

Mas tome cuidado: transpor essa cortina, apesar de simples, é algo tão poderoso que vai deixar muita gente nervosa. Terão ataques de raiva, vão querer te ridicularizar, te calar, fazer você voltar para o seu estado anterior. Para muita gente, nada que mude pode ser algo bom. Mas você pode imaginar o motivo, né? Normal que essa gente fique tão insegura. Afinal, quando descobrimos que não precisamos lutar umas com as outras, podemos fazer coisas incríveis.

Imagine quanta coisa pode ser diferente se, ao invés de cerrarmos os punhos, estendermos a mão para aquela outra mulher. Imagine poder olhar para nossas irmãs negras, brancas, indígenas, jovens, velhas, cissexuais, transsexuais, heteros, bi, lésbicas, magras, gordas, com ou sem deficiência, baixas, altas e ver que mesmo com tantas diferenças há algo profundo que nos conecta.

Com essa simples mudança de atitude e de pensamento vamos rasgar em mil pedacinhos e ainda sapatear em cima de uma das mais perversas mentiras que contam sobre nós. E, de quebra, ainda podemos conhecer novas amigas. Mulheres com quem vamos poder nos divertir, compartilhar momentos e contar com elas para o que der e vier.

Que possamos mandar um recado para as outras mulheres e não seja de ódio, desprezo ou julgamento; mas um “estamos juntas”. Porque juntas somos mais fortes para combater as armadilhas machistas do nosso mundo. Porque só juntas sobreviveremos.

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sábado, 23 de julho de 2011

Histórias Íntimas de um Homem Feio.

A capa do livro é sugestiva – um buraco de fechadura que lembra a genitália externa feminina. Intencional ou não, ilustra o livro da historiadora Mary del Priore – Histórias Íntimas, Sexualidade e Erotismo na História do Brasil, que se torna, pelas mãos da autora, documento vivo para que se compreenda o real e o imaginário da sexualidade humana. Desde Isabel de Castela, que morreu sem mostrar parte alguma do seu corpo, mesmo aos médicos que tentaram atendê-la, até os nossos dias, a autora, em extenso estudo, ventila o arquivo histórico de nossa sexualidade.
Afinal, por que falar deste livro tão interessante, já que claramente não tenho a menor qualidade para crítico literário? Durante a sua leitura, casualmente, vi em programação rotineira da TV, um importante homem da República a falar, academicamente, sobre relevante fato do nosso cotidiano. “Que homem feio!”, pensei casualmente. Embora muitíssimo bem-vestido, a importante figura parecia extremamente frágil em suas eruditas considerações. Escondia, ao que me pareceu, em cada citação doutrinária, o lado contrário de sua exuberante indumentária. Era, afinal, apenas um homem feio. Dito desta maneira, parece coisa politicamente incorreta.
O homem feio, certamente, não é aquele cuja fisionomia, postura, linguagem corporal, facilidade de expressão não são rigorosamente atraentes. Lembro-me, a propósito, de famoso ator do cinema francês, de algumas décadas passadas, Jean Paul Belmondo, que arrancava suspiros femininos nos quatro cantos do mundo, embora não fosse exatamente um homem bonito. Penso que, ao contrário da mulher, onde a beleza é essencial, como queria Vinícius de Moraes, esta qualidade no homem passa ao largo da aparência física.
Ao homem bonito basta apenas uma qualidade, rara, mas apenas uma – ser amado. Essa manifestação do afeto traz, implicitamente, a qualidade do belo, da beleza. De modo que, ao achar o homem feio, embora poderoso, tenho cá comigo que jamais terá experimentado uma genuína, verdadeira e fundamental carícia feminina, o desejo sexual pelo seu corpo ou, ainda, sequer o mais singelo olhar de uma mulher apaixonada. A ele resta, então, aferrar-se ao poder, que funciona tão somente como um sucedâneo do amor.
Edgard Porto é psiquiatra


domingo, 17 de julho de 2011

Pronome não definido.

 O artigo abaixo foi escrito pela jornalista Ana Paulo Nunes para a revista semanal de difusão cultural, que nos leva a uma profunda reflexão dos possíveis caminhos de uma sociedade em transição para o século XXI.

Recentemente eu li uma notícia na Globo.com que me fez refletir sobre assuntos que debatíamos muito durante as aulas de Sociologia na faculdade e que de alguma forma se encaixam nas minhas recentes pesquisas sobre a questão do gênero. 


A notícia era sobre um casal canadense pais de um bebê de quatro meses, mas que preferiram não revelar o sexo da criança. Depois de uma busca pela internet descobri numa reportagem da Revista Época, outro caso divulgado pela mídia semelhante. Um casal sueco, pais de uma criança de dois anos de idade ainda não tinham revelado o sexo da criança, apenas amigos ou familiares mais próximos que ajudaram a cuidar do bebê é que sabiam essa informação.

De acordo com a matéria, os pais de Pop resolveram adotar esse comportamento acreditando que o gênero é uma construção social, e assim sendo, optaram por não forçar a criança a um gênero que a moldará sociologicamente. O bebê veste-se tanto com vestidos quanto com calças compridas, sendo ele que escolhe a roupa ou o penteado que quer usar. Dessa maneira, os pais acreditam que caberá a ele decidir se é homem ou mulher e no tempo dele.

A notícia também foi postada em um fórum e foi muito interessante perceber nos tons dos comentários feitos pelos usuários o quanto a relação de gênero é um assunto muito polêmico. Muitos ainda se referem como a “natureza feminina” e a “natureza masculina”, tornando o assunto muito mais biológico do que social. E sempre quando vejo uma inversão de valores, quando vejo um problema social sendo apresentado como algo biológico lembro de algo que meu professor sempre fala. A questão biológica é muito mais definitiva, ela é dada, não aceita mudanças. No âmbito social, apesar de complexo, há possibilidades de alterações.

Assim, esse discurso biológico extremamente perigoso, mas que ainda hoje se apresenta  como senso comum, é uma ideologia que impede mudanças socioculturais. Apesar de perceber o quanto é errôneo pensarmos na identidade feminina e masculina como algo biológico. Não estou aqui defendendo a postura adotada por esses pais, afinal a questão é muito mais complexa do que simplesmente supormos que ao deixarmos uma criança escolher suas roupas e penteados estaremos acabando os conflitos da relação de gênero.



Ana Paula Nunes é jornalista e pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo - USP. Escreve aos domingos, quinzenalmente, na ContemporARTES.

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